Como saber se o valor cobrado pelo convênio bate com o que foi realizado na cirurgia antes de aceitar o repasse
Você vai aceitar o repasse sem conferir? Esse é o erro mais caro do bloco
O hospital manda o demonstrativo, o valor cai na conta e você segue para a próxima cirurgia. Parece certo. Mas quantas vezes o que o convênio pagou realmente bateu com o que você realizou na mesa?
A resposta honesta, para a maioria dos cirurgiões e anestesistas que atuam como frila, é: quase nunca alguém confere de verdade.
Por que a diferença entre o cobrado e o realizado é tão comum
O convênio audita, gloса e aplica reduções antes de liberar o repasse. O problema é que esse processo acontece longe dos seus olhos, entre o hospital e a operadora, e você recebe o resultado final sem contexto.
As causas mais frequentes de divergência são:
- Procedimento realizado não consta na guia enviada pelo hospital
- Código TUSS lançado errado, seja por erro da equipe de faturamento ou por desatualização da tabela
- Porte cirúrgico subcodificado, o que reduz o valor base do honorário
- Acréscimos por porte anestésico ignorados no cálculo do repasse
- Coparticipação descontada sem comunicação prévia
Cada um desses pontos pode significar centenas ou até milhares de reais a menos no seu bolso, por cirurgia.
O que você precisa ter em mãos antes de aceitar qualquer valor
Antes de assinar mentalmente que o repasse está correto, você precisa cruzar quatro informações:
- O procedimento principal e os secundários que você efetivamente realizou, com os respectivos códigos (TUSS ou CBHPM)
- A guia que o hospital enviou ao convênio, confirmando que tudo que você fez foi de fato faturado
- O demonstrativo de pagamento do convênio, que detalha o que foi aceito, o que foi glosado e qual valor foi liberado
- A tabela de honorários vigente para aquele convênio específico, que determina o valor de referência para cada código
Sem esses quatro elementos juntos, você está aceitando um número no escuro.
Como consultar se o código e o valor fazem sentido
Um ponto que muitos médicos pulam é a verificação do próprio código antes de qualquer contestação. Se você não sabe qual valor o convênio deveria pagar para determinado procedimento, fica difícil saber se foi prejudicado.
Para isso, o Buscador de TUUS é um recurso gratuito útil para consultar rapidamente códigos de procedimentos e ter uma referência de valor antes de entrar em qualquer discussão com o hospital ou a operadora.
Não resolve tudo, mas já elimina o tempo perdido tentando lembrar se aquele código estava certo ou procurando tabela em PDF desatualizado.
O processo de conferência na prática: simples, mas precisa ser feito
Você não precisa de um departamento financeiro para fazer isso. Precisa de um processo repetível.
Passo a passo mínimo antes de aceitar o repasse:
- Registre o procedimento realizado logo após a cirurgia, ainda no hospital ou no caminho para o próximo
- Anote o código principal, os secundários e o porte anestésico quando for o caso
- Quando o demonstrativo chegar, compare linha por linha com o que você registrou
- Identifique qualquer procedimento ausente ou valor abaixo do esperado
- Se houver divergência, reúna evidências e acione o hospital antes do prazo de recurso do convênio
O timing importa. Convênios têm prazo para recurso de glosa. Deixar para depois muitas vezes significa perder o direito de contestar.
O que torna esse processo difícil na rotina real
O problema não é a lógica, que é simples. O problema é a execução quando você está entre um plantão e outro, sem secretária, resolvendo tudo pelo celular.
Sem um registro centralizado das cirurgias, você vai tentar lembrar de cabeça o que fez há três semanas quando o demonstrativo chegar. E memória em rotina de frila é a ferramenta mais cara e menos confiável que existe.
Planilha no Google Drive, foto da guia no WhatsApp e áudio para si mesmo não são sistema. São gambiarras que falham exatamente quando o valor errado entra na conta.
Registro na hora certa é o que separa quem contesta de quem aceita calado
A conferência real começa no momento em que você sai do bloco, não quando o pagamento cai.
Quem registra o procedimento, o convênio e o valor esperado imediatamente depois de cada cirurgia tem tudo que precisa para comparar quando o demonstrativo chegar. Quem não registra depende de sorte e boa fé do faturamento do hospital.
A diferença entre esses dois médicos, ao longo de um ano, pode ser equivalente a várias cirurgias não pagas.
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