Como montar uma tabela de honorários particular atualizada quando você é autônomo e cada hospital usa uma base de cobrança diferente
A realidade de quem opera em três hospitais com três tabelas diferentes
Você termina uma colecistectomia no hospital A, que usa a CBHPM 5ª edição como referência. Na tarde do mesmo dia, fecha uma hérnea no hospital B, que negocia valores próprios baseados na TUSS. E no plantão da semana, o hospital C simplesmente repassa o que “a conveniada autoriza”, sem transparência nenhuma.
Resultado: você não sabe ao certo quanto vai receber por cada procedimento. E montar uma tabela de honorários particular, nesse cenário, parece um quebra-cabeça sem borda.
Por que a falta de uma tabela própria custa dinheiro real
Quando o autônomo não tem uma referência consolidada de honorários, três coisas acontecem com frequência:
- Aceita valores abaixo do que poderia negociar porque não tem números na mão
- Cobra inconsistente para pacientes particulares do mesmo procedimento
- Perde tempo reconstruindo o histórico a cada negociação com o hospital
Isso não é só desorganização. É receita que escapa sem que você perceba.
O primeiro passo: entenda o que cada hospital está usando como base
Antes de montar qualquer tabela, você precisa mapear a régua de cada hospital.
Na prática, a maioria dos hospitais privados usa uma dessas três referências:
CBHPM (Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos) Ainda muito usada como referência de porte cirúrgico e valor-base. A edição atual é a 5ª, de 2010, mas muitos hospitais atualizam os coeficientes por índices próprios.
TUSS (Terminologia Unificada da Saúde Suplementar) Padrão da ANS para operadoras de saúde. Cada procedimento tem um código. Para consultar valores de referência associados aos códigos TUSS, o Buscador de TUUS é um recurso gratuito e direto.
Tabela própria do hospital ou convênio Bastante comum. O hospital negocia diretamente com as operadoras e repassa ao médico uma fração, nem sempre explicitada de forma clara.
Saber qual base cada hospital usa é o ponto de partida para você ter argumentos na hora de negociar ou questionar um valor.
Como montar sua tabela particular em três camadas
Para pacientes particulares (sem convênio), você tem mais liberdade. Veja um modelo prático:
Camada 1: Valor de referência Use a CBHPM ou TUSS como âncora objetiva. Isso te dá uma base defensável se o paciente questionar.
Camada 2: Fator de atualização A CBHPM de 2010 está defasada. Aplique um índice de correção, seja o IPCA acumulado desde 2010 ou um percentual que reflita o seu mercado local. Defina esse número e documente.
Camada 3: Variáveis de complexidade Tempo cirúrgico real, grau de dificuldade técnica, uso de equipamento especial. Esses fatores justificam variações acima da tabela-base e devem estar explícitos no seu honorário.
Com essas três camadas, você não precisa mais definir valor “de cabeça” nem correr o risco de cobrar diferente para dois pacientes com o mesmo procedimento.
Como manter isso atualizado sem virar planilheiro
O maior problema não é montar a tabela. É manter ela viva.
Hospitais mudam os contratos. Convênios atualizam tabelas. O IPCA acumula. E você está no bloco, entre um procedimento e outro, sem tempo para revisar planilha nenhuma.
Alguns pontos práticos:
- Revise sua tabela a cada seis meses, no mínimo. Coloque um lembrete no celular.
- Registre o valor cobrado em cada procedimento, vinculado ao hospital. Isso cria histórico real, não teórico.
- Separe o honorário do médico assistente do honorário dos auxiliares. A tabela de quem auxilia não é a mesma de quem opera. Misturar isso gera erro no rateio depois.
O risco de depender só da memória e do WhatsApp
É muito comum o autônomo guardar os valores “na cabeça” ou em mensagens no grupo da equipe. Funciona até o dia que não funciona, que é quando o paciente questiona, o hospital atrasa o repasse ou você precisa emitir nota fiscal e não lembra o valor exato combinado.
Sem registro centralizado, você não tem histórico. Sem histórico, você não tem argumento. E sem argumento, você aceita o que o hospital oferece.
Tabela organizada é o começo. Registro automatizado é o que protege seu bolso.
Montar sua tabela de honorários particular é um ato de autonomia profissional. Mas ela só funciona se estiver integrada ao seu fluxo de trabalho real, não em uma planilha que você abre uma vez por mês.
O médico autônomo que opera em vários hospitais precisa de uma ferramenta que acompanhe o ritmo do bloco: rápida, acessível pelo celular e capaz de vincular cada procedimento ao valor correto, ao hospital certo e ao rateio da equipe, tudo na hora que acontece.
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