Como montar o preço de um procedimento cirúrgico particular do zero quando você é autônomo e não tem tabela de referência
Você terminou a cirurgia. Agora vem a pergunta que ninguém te ensinou na residência
Quanto cobrar?
Se você atua como autônomo em cirurgias particulares, essa pergunta provavelmente já te travou. Não tem tabela fixada pelo convênio para seguir, não tem coordenador te passando o valor, não tem secretária calculando. Só você, o celular e a pressão de não parecer nem “barato demais” nem “fora da realidade”.
A boa notícia: existe um método. E dá para aplicar antes de sair do vestiário.
Por que a maioria dos médicos autônomos cobra errado (e perde dinheiro sem perceber)
O erro mais comum não é cobrar pouco. É cobrar sem critério.
Sem critério, você aceita o que o paciente oferece, copia o valor do colega ou usa o que “acha razoável”. Com o tempo, seus honorários viram uma colcha de retalhos: procedimentos similares com preços diferentes, pacientes que pagaram menos do que deveriam, e você sem saber o que produziu no mês.
Glosa, repasse atrasado e rateio injusto são consequências. A causa é a falta de uma base de precificação própria.
O ponto de partida: o que as tabelas dizem (e o que elas não dizem)
As tabelas como CBHPM, TUSS e AMB existem para balizar, não para amarrar. No particular, você tem liberdade de precificar acima delas, mas elas são o seu chão.
Antes de qualquer cálculo, consulte o código do procedimento e o valor de referência correspondente. O Buscador de TUUS é uma ferramenta gratuita útil para isso, especialmente quando você precisa checar o código TUSS de um procedimento específico e ter um número de referência na mão.
Com o valor de referência em mãos, você começa a construir o preço de verdade.
Os 5 componentes do preço real de um procedimento particular
1. Custo do seu tempo
Estime quantas horas você gasta no procedimento inteiro: consulta pré-operatória, ato cirúrgico e retorno mínimo pós-operatório. Defina quanto vale uma hora do seu trabalho com base na sua meta de renda mensal. Esse é o seu piso.
2. Complexidade e risco
Procedimentos de maior risco, maior tempo de recuperação ou maior probabilidade de complicações justificam honorários mais altos. Use a classificação de porte anestésico-cirúrgico como referência objetiva.
3. Impostos e encargos
Autônomo não tem desconto invisível na fonte. Você precisa incluir no preço:
- ISS (2% a 5%, variável por município)
- IRPF (conforme sua faixa)
- INSS (se Pessoa Física)
- Eventual taxa de nota fiscal eletrônica
Se você emite como PF, o impacto pode chegar a 27,5% sobre o valor bruto. Se emite como PJ, depende do regime tributário. Ignore isso e você está literalmente trabalhando de graça em parte do procedimento.
4. Estrutura e logística
Você se deslocou entre hospitais? Usou equipamento próprio? Pagou estacionamento, alimentação entre um bloco e outro? Esses custos existem e não aparecem em nenhuma tabela. São seus.
5. Rateio da equipe cirúrgica
Se você opera com ajudantes, anestesistas ou instrumentadores, o valor cobrado do paciente precisa comportar os repasses. Defina os percentuais antes da cirurgia, não depois. Combinado na boca não tem força quando o dinheiro entra.
Monte sua tabela própria: simples, mas não improvisada
Com esses cinco componentes, você consegue calcular um valor mínimo sustentável por procedimento.
A estrutura é direta:
- Valor base = referência da tabela × fator de ajuste (complexidade, risco, mercado local)
- Valor líquido esperado = valor base menos impostos e encargos
- Valor bruto cobrado = valor líquido + todos os custos operacionais + margem da equipe
Salva isso numa planilha ou num app. Atualiza a cada procedimento novo. Com três meses de histórico, você vai ter uma tabela real, calibrada pela sua realidade, não pela de um hospital universitário dos anos 90.
O erro que acontece depois: não registrar o combinado
Você fez o cálculo, combinou o valor com o paciente, realizou o procedimento. E o dinheiro entrou? Em quanto tempo? Qual parte foi para o anestesista? Você emitiu nota fiscal?
Sem registro sistemático, o combinado vira memória. E memória falha, especialmente quando você está saindo de uma cirurgia de quatro horas para entrar em outra.
O WhatsApp não é sistema de gestão. Planilha compartilhada no grupo da equipe não é faturamento. E quando vem a malha fina ou a discussão com um colega sobre repasse, você vai querer ter tudo documentado, com data, valor e status de pagamento.
Precificar direito é o primeiro passo. Organizar é o que garante o dinheiro no bolso.
Saber o preço justo do seu procedimento é metade do caminho. A outra metade é garantir que o valor cobrado chegue até você, no prazo, com a nota fiscal correta emitida e o rateio da equipe feito sem atrito.
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