Como fazer o rateio médico de uma cirurgia de emergência quando não houve acordo prévio de honorários entre a equipe
A emergência não espera. O rateio também não pode esperar.
Você acabou de sair de uma cirurgia de emergência. Foi aquela cena clássica: paciente entrando em colapso, equipe montada na hora, ninguém combinou nada antes. Agora, na ante-sala, alguém pergunta: “E o dinheiro, como vai ficar?”
Silêncio.
Essa situação acontece com muito mais frequência do que deveria. E quando não há acordo prévio de honorários, o rateio vira uma fonte de atrito que pode custar dinheiro, tempo e até amizades profissionais.
Por que a emergência cria esse vazio financeiro?
Em cirurgias eletivas, há tempo para combinar: quantos instrumentadores, qual anestesista, qual será o valor cobrado do convênio ou do particular, como vai ser dividido.
Na emergência, o protocolo clínico vem primeiro. E está certo que seja assim.
O problema é que o silêncio financeiro que vem depois cria três cenários ruins:
- Cada membro da equipe fatura por conta própria, com valores inconsistentes.
- O rateio é feito “no olhômetro”, gerando desconforto entre os colegas.
- Ninguém fatura nada porque ninguém quer ser o primeiro a falar em dinheiro.
Os três cenários têm o mesmo resultado: alguém sai prejudicado.
Qual é o ponto de partida quando não houve acordo?
A resposta está nas tabelas de referência. Sem combinação prévia, o critério mais justo e defensável é o valor de mercado padronizado pelo procedimento realizado.
As principais referências são a CBHPM (Classificação Brasileira de Hierarquia de Procedimentos Médicos) e a tabela TUSS. Ambas definem o porte cirúrgico e o percentual de participação de cada papel na equipe: cirurgião principal, primeiro auxiliar, segundo auxiliar, anestesista.
Para consultar rapidamente o código e o valor de referência do procedimento realizado, o Buscador de TUSS é um recurso gratuito que ajuda a identificar o procedimento e cruzar com a tabela.
Com o valor base em mãos, o rateio segue as proporções clássicas:
- Cirurgião principal: 70% do valor total da equipe cirúrgica (referência CBHPM)
- Primeiro auxiliar: 20 a 30%
- Segundo auxiliar: 10 a 15%
- Anestesista: valor calculado separadamente, com base no porte anestésico e no tempo de ato
Esses percentuais não são lei, mas são o ponto de partida mais neutro quando não há acordo prévio.
O que fazer na prática, agora, pelo celular?
Antes de chegar no próximo hospital, você precisa registrar o procedimento. A memória é traiçoeira e as informações somem.
Capture agora:
- Data e hora do procedimento
- Nome e CRM de cada membro da equipe
- Código TUSS/CBHPM do procedimento principal
- Valor cobrado (se particular) ou valor da tabela do convênio (se convênio)
- Papel de cada membro (cirurgião, auxiliar, anestesista)
Com isso registrado, o rateio pode ser calculado e comunicado de forma clara para todos. Sem achismo, sem pressão, sem WhatsApp confuso às 23h.
O WhatsApp não é sistema de faturamento. Nunca foi.
O problema não é a urgência da cirurgia. O problema é que a maioria dos pequenos grupos médicos ainda tenta resolver o financeiro no grupo de WhatsApp, com mensagens que se perdem, áudios que ninguém escuta e planilhas que ninguém atualiza.
Resultado? Repasses atrasados, rateios questionados, notas fiscais emitidas errado e glosas que poderiam ter sido evitadas.
A emergência revela o que já estava quebrado antes dela.
Como formalizar o rateio sem virar gestor financeiro?
Você não precisa de um contador ao lado nem de uma secretária dedicada. Precisa de um processo mínimo que funcione na correria entre um hospital e outro.
Esse processo tem três passos:
- Registrar o procedimento no momento em que ele acontece, com os dados da equipe.
- Calcular o rateio com base nas tabelas e nos percentuais acordados (ou de referência).
- Emitir as notas fiscais corretamente, cada membro pelo seu valor proporcional.
Quando isso está automatizado, não importa se a cirurgia foi eletiva ou de emergência. O fluxo é o mesmo.
Emergência não é desculpa para faturar errado.
A cirurgia foi de emergência. O faturamento não precisa ser.
Com o processo certo, você registra o procedimento em minutos, aplica o rateio proporcional e cada membro da equipe emite a nota pelo valor correto. Sem discussão no grupo, sem valor esquecido, sem colega que “achou” que ia receber mais.
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